REDEFININDO A MELHOR IDADE
“Envelhecer é como escalar uma grande montanha: enquanto se sobe, as forças diminuem, mas o olhar se torna mais livre, a vista mais ampla e serena.” Ingmar Bergman
Decidir como chamar alguém que chega aos 50 é, de fato, um verdadeiro quebra-cabeça – digno de uma partida de xadrez emocional. Alguns preferem o elegante “jovem maduro,” um título que parece um vinho de safra especial, enquanto outros correm como o diabo da cruz das temidas expressões “senhor” e “senhora” (afinal, ninguém quer ser promovido socialmente sem aviso prévio).
Mas a criatividade não para por aí! Há os que se autointitulam “cinquentões em flor”, “sexagenários” – porque, claro, estão desabrochando em outra estação da vida. Outros preferem o mais moderno “golden age,” que soa chique e com um toque de glamour hollywoodiano. E tem quem adote o espirituoso “melhor idade,” mesmo que nem sempre concordem com o marketing da expressão (melhor para quem, exatamente?). Para os mais ousados, há o conceito de “vintage premium,” porque, como bons vinhos e discos de vinil, eles acreditam que só melhoram com o tempo. E não podemos esquecer os que abraçam o famoso “50 é o novo 30,” ignorando solenemente as lombalgias e os óculos de leitura que insistem em discordar. Como disse o escritor francês Victor Hugo: “Quarenta anos é a velhice da juventude; cinquenta anos é a juventude da velhice.” Então, por que não aproveitar o melhor dos dois mundos? Você pode ser velho o suficiente para ser respeitado e jovem o suficiente para quebrar regras – um combo irresistível. E se tudo falhar, sempre resta o título universal: “gente de bem com a vida.” Porque, no fim, não importa como te chamem – o importante é como você vive essa fase. Então, escolha seu rótulo com sabedoria, mas lembre-se: o conteúdo sempre será mais importante do que a embalagem.
A tal da “melhor idade?” Alguns abraçam, outros acham esse título um pouco demais. A verdade é que lidar com o envelhecimento — o nosso e o dos outros — é uma tarefa com seus desafios e comédia. Envelhecer pode ser assustador, mas também traz momentos de sabedoria.
Falar sobre a velhice com leveza, ironia e humor é uma forma de encarar a chegada do tempo com mais naturalidade e, quem sabe, até um sorriso. Afinal, envelhecer é algo que cada vez mais faz parte da nossa realidade, especialmente em países em desenvolvimento, como o Brasil. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2060, um grande pedaço da população brasileira terá mais de 60 anos. Hoje, temos 20,6 milhões de idosos, o que já representa 10,8% da população. Em 2060, esse número pode alcançar 26,7%! Ou seja, a quantidade de idosos no Brasil vai crescer 15 vezes entre 1950 e 2025.
Envelhecer é, nada mais, nada menos, do que a consequência de viver – e que privilégio é viver, né? Mas a grande questão não é apenas envelhecer, mas envelhecer bem. Esse é o verdadeiro desafio e objetivo de todos nós: fazer com que o passar dos anos seja uma jornada de aprendizado, equilíbrio e cuidado com a saúde mental e física. O tempo vai passar de qualquer jeito, mas como ele vai passar pra você? A escolha de envelhecer com qualidade e bem-estar está totalmente nas nossas mãos.
Vivemos tempos curiosos. Nunca se falou tanto sobre aceitação, mas também nunca se investiu tanto para esconder os sinais do tempo. A indústria da beleza, sempre ágil, promete desafiar a ampulheta, oferecendo cremes milagrosos, tecnologias revolucionárias e um arsenal de procedimentos que esculpem, esticam, preenchem e rejuvenescem. Um lifting aqui, um botox ali, um retoque acolá – e, por alguns meses, a ilusão da eternidade se sustenta.
Não há mal algum em se cuidar, em querer se sentir bem, em buscar aquela versão de si que parece mais viva no espelho. Afinal, quem não gosta de se admirar e reconhecer ali um brilho familiar? Mas vale a reflexão: estamos cuidando de nós ou nos travestindo para caber em um ideal de juventude inatingível? Porque há um detalhe que poucos mencionam: todo retoque tem prazo de validade. O tempo, implacável e discreto, sempre volta para cobrar a fatura. E então refazemos o procedimento. E de novo. E de novo. Uma dança sem fim com o reflexo no espelho.
Mas o que acontece quando essa busca se torna uma prisão? Quando, em vez de aceitarmos o fluir natural da vida, entramos em guerra contra cada linha de expressão, cada fio branco, cada traço que testemunha nossa história? O perigo não está na estética em si, mas na recusa obstinada em permitir que o tempo cumpra seu papel. A juventude eterna, vendida como promessa, pode ser, na verdade, um exílio de si mesmo.
Cuidar do corpo é um gesto de amor próprio, mas talvez a maior revolução esteja em aprender a cuidar também da mente e do coração. Porque existe uma beleza rara na autenticidade, na serenidade de quem entende que o tempo não rouba – ele transforma. A maturidade não precisa ser temida, mas celebrada. O tempo pode levar o viço da pele, mas em troca nos dá um olhar mais sábio, histórias mais ricas e uma liberdade que a juventude, na ânsia de se provar, ainda desconhece.
Mas e se pensarmos em outro tipo de procedimento? Um que não tem prazo de validade, não precisa de retoques e só valoriza com o passar do tempo: o que acontece dentro de nós. Investir na nossa essência, aceitar as mudanças que a vida nos traz e enxergar beleza nas marcas que carregamos é o procedimento mais nobre e valioso que existe. Essas linhas e rugas que tanto tentamos apagar contam histórias – de risadas, desafios superados e momentos vividos. São traços de uma vida rica, cheia de experiências. Tirar essas marcas pode até suavizar o rosto, mas será que não acabamos apagando também um pedacinho de quem somos?
No fim das contas, polir o lado de fora é válido, digno e até necessário — um carinho consigo mesmo, um agrado ao espelho, um pacto temporário com a gravidade. Mas há um detalhe que muitos esquecem entre uma aplicação de sérum e outra: a beleza mais radiante não se encontra na superfície, e muito menos precisa de retoques.
Ela não vem engarrafada em um frasco de vidro fosco nem pode ser aplicada em camadas uniformes. Não obedece ao bisturi, não se dissolve em ácido hialurônico e tampouco se sustenta apenas em preenchimentos e lifting. A beleza verdadeira — essa que resiste ao tempo, às rugas e às modas passageiras — é a que floresce de dentro para fora, nutrida por histórias bem vividas, risadas soltas, olhares generosos e a serenidade de quem já entendeu que o tempo não é inimigo, mas coautor da nossa melhor versão.
Nenhum creme tem o poder de iluminar o brilho de quem se sente confortável dentro da própria pele. Nenhum procedimento consegue esculpir a leveza de quem vive sem medo de ser quem realmente é. Porque, no fim, não são as rugas que nos envelhecem, mas a falta de alegria. E não há cosmético no mundo capaz de substituir o efeito rejuvenescedor de uma vida bem aproveitada.
Além da pressão social para parecer jovem, temos o famigerado “idadismo” — também conhecido como “velhofobia”. Em resumo, é a ideia de que envelhecer nos coloca numa suposta desvantagem em relação aos mais jovens. Essa visão, claro, é bem desatualizada. Gilberto Gil já cantou que “o melhor lugar do mundo é aqui e agora”, e viver o presente, em qualquer idade, é o que realmente importa. O idadismo não é apenas uma questão de atitudes sociais; é um fator estrutural que impacta profundamente a saúde mental e emocional dos mais velhos. Pesquisas mostram que idosos que internalizam estereótipos negativos sobre o envelhecimento têm maior risco de depressão, isolamento e até declínio cognitivo (Levy et al., 2002).
Ao contrário da visão de que “o velho já fez sua parte”, a velhice é um espaço de reinvenção e crescimento. Assim, a forma como uma sociedade valoriza seus idosos reflete diretamente em como eles se veem. Quando o envelhecimento é retratado como um “problema a ser resolvido,” ele mina a autoestima e sufoca o desejo de participar plenamente da vida. Enfrentar o idadismo começa com a construção de uma nova narrativa sobre o envelhecimento. Para isso, é essencial que os idosos reforcem suas fontes de propósito e satisfação. Como declarou Mark Twain: “A idade é uma questão da mente. Se você não se importa, ela não importa.” Estratégias como aprender novas habilidades, buscar grupos sociais e celebrar conquistas pessoais ajudam a renovar a autoimagem e a resistir aos estereótipos.
Como observou Carl Jung: “A vida realmente começa aos 40. Antes disso, fazemos apenas pesquisa.” Portanto, envelheçamos com coragem, humor e propósito. Que o envelhecimento seja visto não como o crepúsculo da vida, mas como uma nova aurora — repleta de possibilidades, realizações e, claro, de um bom riso diante das limitações que insistem em desafiar nossa vitalidade. Afinal, como bem sabemos, a idade é apenas um número, mas o espírito humano é atemporal.
O que dizer do etarismo, esse intruso indesejado que insiste em marcar presença onde não é chamado? Ele é como aquele parente inconveniente nas festas de família, que solta comentários infelizes sem que ninguém tenha pedido sua opinião. Mas, diferente desse parente que podemos evitar no Natal, o etarismo está entranhado na sociedade, disfarçado de piadas, políticas de mercado e padrões estéticos inalcançáveis. Ele sussurra que depois de certa idade não se aprende mais, não se ama mais, não se começa nada novo — uma mentira contada tantas vezes que muita gente acaba acreditando.
A verdade, porém, é outra: a vida não perde o brilho com o tempo, ela apenas troca os refletores. Como diz Belchior na icônica Como Nossos Pais, “o novo sempre vem”. O tempo não nos rouba a vida, ele nos oferece novas versões dela, e quem aprende a abraçar cada fase sem medo descobre que a juventude é mais um estado de espírito do que uma data no RG.
O mercado de trabalho, no entanto, ainda resiste a essa ideia, preferindo a pressa dos jovens à sabedoria dos experientes. As mídias sociais vendem a juventude como um passaporte obrigatório para a relevância, ignorando que os anos acumulados trazem um repertório que filtro nenhum consegue reproduzir. Mas se tem algo que a vida ensina, é que a beleza da maturidade está justamente na liberdade que ela nos dá — liberdade de não se importar tanto com a opinião alheia, de rir dos próprios tropeços.
O etarismo, no fundo, é uma ilusão coletiva, uma tentativa vã de aprisionar a vida em um único período, como se tudo de bom estivesse reservado apenas para os vinte e poucos anos. Mas quem envelhece com vitalidade sabe que a existência é feita de capítulos, e alguns dos melhores só começam a ser escritos depois que os cabelos embranquecem e a pressa dá lugar à sabedoria. Afinal, como bem lembrou Cazuza, “o tempo não para” — e ainda bem, porque viver é um espetáculo que merece ser aplaudido do primeiro ao último ato.
E sabe o que é mais legal? Muitas culturas ao redor do mundo respeitam profundamente a sabedoria dos mais velhos. Na comunidade indígena, por exemplo, os anciãos são frequentemente vistos como guardiões do conhecimento e da tradição. E até na ciência, pesquisadores estão descobrindo que o cérebro continua a se desenvolver ao longo da vida, permitindo aprendizado e crescimento contínuos. Afinal, como dizia o poeta Mario Quintana, “os verdadeiros analfabetos são os que aprenderam a ler e não leem”. E vamos combinar: essa história de que só os jovens têm energia e inovação é pura balela! Existem muitos exemplos inspiradores de pessoas que desafiaram essa visão estreita do envelhecimento. Veja o David Attenborough, que, aos 97 anos, ainda explora o planeta como se tivesse descoberto o Google Earth ontem. E, claro, nossa majestosa Fernanda Montenegro, que, com mais de 90 anos, segue hipnotizando todo mundo com seu talento nos palcos e nas telas. Inclusive, dona Fernanda, um pedido: por favor, fique firme e forte por muitos e muitos anos – pelo menos até meu livro sair e a senhora poder ler! Depois a gente negocia mais umas décadas, combinado?
Portanto, o que realmente importa é a atitude! Envelhecer com um propósito, manter a mente ativa e o coração aberto às novas experiências é o que faz toda a diferença. E, claro, dar risada de vez em quando — porque nada rejuvenesce mais do que um bom senso de humor.
Você já ouviu falar da gerascofobia? O nome pode até soar como feitiço de livro de magia, mas, na verdade, é um medo bem real e incrivelmente comum: o pavor irracional de envelhecer. E não estamos falando apenas de receios normais, como esquecer onde colocou as chaves (ou quem sabe o próprio celular enquanto fala nele). A gerascofobia é aquele desespero crescente diante da passagem do tempo, uma verdadeira crise existencial só de imaginar aniversários chegando sem a opção de “pular” para a idade anterior.
E sejamos sinceros: nossa sociedade não colabora. Vivemos em uma cultura obcecada pela juventude, que vende cremes milagrosos, procedimentos estéticos e filtros digitais como se fossem poções da imortalidade. O mercado da beleza movimenta bilhões porque, convenhamos, o medo de envelhecer dá um lucro absurdo. Até o Botox já virou presente de amigo secreto.
Mas o buraco da gerascofobia é muito mais profundo do que um simples pavor de mudanças na aparência. Esse medo está enraizado em crenças distorcidas sobre o envelhecimento, como se ele fosse sinônimo automático de declínio, solidão e incapacidade. A sociedade nos treinou para enxergar a velhice como um sinônimo de perda: perda de beleza, de energia, de relevância. E quando acreditamos cegamente nisso, a ansiedade dispara, e qualquer sinal de que o tempo está passando vira um gatilho de pânico.
O problema é que essa visão é, no mínimo, míope. Se a juventude tem suas vantagens, a maturidade também tem seus encantos (e, muitas vezes, muito mais equilíbrio emocional e liberdade). Envelhecer pode ser sinônimo de sabedoria, de experiências acumuladas, de histórias incríveis para contar (e, vamos combinar, de finalmente não se importar tanto com a opinião alheia). A velhice não é uma questão de idade, mas de estado de espírito.
Talvez a grande questão não seja evitar a velhice, mas sim aprender a envelhecer bem – sem neuras, sem medo e sem se tornar refém de um ideal inalcançável de juventude eterna. Porque, no fim das contas, o que assusta não é o tempo passando, mas a maneira como escolhemos encará-lo.
Mas a verdade é que essa obsessão pela juventude é um reflexo da nossa cultura. Como bem apontou Simone de Beauvoir, em A Velhice, “a sociedade disfarça a velhice, mas não nos poupa de seus efeitos”. Em outras palavras, a busca pela juventude é, muitas vezes, uma tentativa de escapar de algo inevitável: o passar do tempo. Claro que ninguém gosta de pensar nas limitações físicas que podem surgir com o envelhecimento. Quem nunca deu aquela olhadinha na lombar depois de uma dorzinha e pensou: será que a velhice começou aqui? É normal ter preocupações sobre o futuro. Mas a gerascofobia vai além disso: ela impede a pessoa de aproveitar o presente por causa do medo do amanhã. Se você se identificou com algum desses medos, calma: existe vida (e muita!) após os 30, 40, 50 e por aí vai.
Vamos deixar uma coisa bem clara: envelhecer não é sinônimo de perder valor ou significado. Pelo contrário, é acumular histórias, aprendizados e conquistas que nem o tempo pode tirar de você. Portanto, questione os padrões sociais: Quem disse que só jovem pode ser bonito ou interessante? A beleza da maturidade está nas marcas da vida, na sabedoria adquirida e nas experiências acumuladas. Envelhecer é inevitável, mas como você escolhe encarar esse processo faz toda a diferença. Então, que tal trocar o medo pela curiosidade? A cada nova pintinha que aparece, você ganha um capítulo da sua história. A cada cabelo branco, uma dose extra de sabedoria. E, se der vontade de rir de si mesmo, faça isso! Porque, como bem disse o poeta Vinicius de Moraes: “A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida.”
Você já pensou que existem ritos de passagens para velhice? Enquanto a infância e a adolescência têm aniversários, formaturas e festas de debutantes, a velhice chega como um convidado que esqueceu de bater na porta – de repente, lá estamos nós, numa nova fase, sem música de fundo nem bolo para comemorar. Mas quem disse que não podemos mudar isso? Se há uma coisa que os anos nos ensinam é que, quando a vida não nos dá uma festa, a gente inventa uma. Que tal criar um novo rito de passagem para celebrar a chegada da “melhor idade” com muito humor e estilo? Imagina só: uma festa de “rebutantes,” com direito a passarela para desfilar as rugas mais charmosas, os cabelos brancos mais brilhantes (ou as carecas mais bem-polidas), e até uma faixa com os dizeres “Experiência é o novo sexy!” Poderíamos ter um bolo com velas que, ao invés de números, representem conquistas. E por que não um baile temático? No lugar do clássico valsa, poderíamos fazer um “Desafio do Passinho da Sabedoria” ou uma competição de dança que valorize a criatividade (porque o joelho pode não aguentar saltos, mas ainda dá para brilhar no quadradinho de dois). Os presentes também seriam personalizados. Nada de objetos banais – estamos falando de kits de sobrevivência para a nova fase, com óculos de leitura, creme para dores musculares e um livro de piadas sobre a velhice (porque rir de si mesmo é essencial).
Você já ouviu falar em envelhescência? Pois é, alguém pensou em nós e cunhou esse termo para dar nome a uma fase pouco falada, mas cheia de nuances. O conceito foi criado pelo gerontólogo francês Pierre-Henri Tavoillot, que comparou o envelhecimento a uma nova adolescência – daí a expressão “adolescência da velhice”. Mas não se engane: se a adolescência é marcada por explosões hormonais e crises existenciais, a envelhescência é um período de transição com desafios próprios, que vão desde mudanças no corpo até redefinições profundas de identidade e propósito.
Enquanto o envelhecimento é um processo biológico inevitável – aquele que nos acompanha desde que nascemos –, a envelhescência é o momento em que começamos a perceber e sentir as transformações associadas à maturidade. É quando algumas realidades batem à porta: aposentadoria (ou a falta dela), filhos saindo de casa, mudanças na dinâmica dos relacionamentos e o famoso “quem sou eu agora?”.
O grande diferencial desse conceito está na forma como ele nos convida a enxergar o envelhecer: não como um declínio automático, mas como uma fase de adaptação e transformação. Assim como um adolescente se debate entre o que foi e o que está se tornando, quem passa pela envelhescência pode enfrentar conflitos internos sobre autonomia, autoimagem e relevância social. Afinal, vivemos em uma cultura que glamouriza a juventude, mas raramente ensina como envelhecer bem.
O lado positivo? Assim como a adolescência pode ser uma fase de autodescoberta, a envelhescência também abre portas para novos significados. Esse é o momento de redefinir prioridades, fortalecer relações que realmente importam, descobrir novos interesses e, principalmente, se libertar de expectativas que já não fazem sentido. Se antes havia a pressão de conquistar um espaço no mundo, agora pode ser o momento de ocupar esse espaço com mais leveza, sem as amarras do “o que vão pensar de mim?”.
Envelhecer não significa perder, mas se reinventar. E se a adolescência foi turbulenta, cheia de aprendizados e descobertas, por que não encarar a envelhescência da mesma forma?
Mais importante do que o ritual de transição, no entanto, seria a mensagem: celebrar a transição para essa etapa como algo cheio de significado, alegria e liberdade. Porque, como diria Mário Quintana, “envelhecer é chato, mas é a única maneira de viver muito tempo.” E se a velhice chega sem aviso, por que não recebê-la com humor, glitter e talvez até um troféu simbólico para comemorar o fato de estarmos aqui, vivos e prontos para escrever novos capítulos?
A ciência também traz contribuições fascinantes para entender o envelhecimento de forma mais realista e menos fatalista. Pesquisas da Universidade de Stanford revelam que, a partir dos 40 anos – e de forma ainda mais intensa após os 60 –, ocorrem grandes mudanças celulares e metabólicas no corpo, reforçando que o envelhecimento não é um processo linear, mas uma jornada cheia de altos e baixos, avanços e ajustes. Ou seja, não é uma ladeira abaixo, mas sim um terreno com subidas, descidas e algumas surpresas no caminho.
E o corpo? Ele não envia convite formal, mas deixa recados o tempo todo. A questão é: estamos ouvindo? Cada nova fase traz sinais sutis (ou nem tanto) que indicam ajustes necessários no ritmo de vida. O grande segredo para envelhecer bem está em respeitar esses sinais – não como limitações, mas como um manual personalizado de autocuidado. Isso significa adaptar hábitos, ajustar expectativas e, principalmente, entender que longevidade saudável não é sobre evitar o tempo, mas sobre caminhar com ele. Afinal, quem aprende a dialogar com o próprio corpo encontra na maturidade não um fardo, mas uma aliada.
Legalmente falando, no Brasil, o início da “velhice civil” começa aos 60, conforme o Estatuto do Idoso, mas hoje sabemos que os 60 são os novos 40 — pelo menos para aqueles que se cuidam. Com o avanço da medicina e o foco em um envelhecimento saudável, a expectativa de vida está aumentando, o que significa que a velhice não é mais só um “finalzinho da vida,” mas uma fase potencialmente longa e cheia de oportunidades. O desafio é: como vamos viver bem nesse tempo que nos é dado? Não precisamos negar o passar dos anos; podemos celebrar, rir, e sim, fazer um retoque aqui e ali, mas sem esquecer que cada sinalzinho no corpo é um capítulo da nossa história. Enfim, envelhecer não precisa ser uma corrida contra o tempo, mas um convite para viver cada dia de forma plena. Afinal, como já dizia Oscar Wilde, “nunca somos jovens demais para sermos velhos e nem velhos demais para sermos jovens.”
Envelhecer é um daqueles temas inevitáveis, tão certos quanto o sol que se põe e a lua que retorna, silenciosa e imutável, noite após noite. Desde o instante em que respiramos pela primeira vez, o tempo se torna um escultor invisível, moldando-nos com mãos firmes e delicadas, talhando no corpo e na alma as marcas de cada dia vivido. Não há pressa nesse processo. O envelhecer não é um salto, mas um fio contínuo, tecido com memórias, experiências e silêncios. É um bordado invisível que só se revela com o passar dos anos.
Cada um envelhece à sua maneira, pois cada história é única. No entanto, na visão popular, o envelhecimento ainda é frequentemente descrito como uma descida, um declínio inevitável. Como se o tempo apenas nos tomasse e não nos oferecesse nada em troca. Mas essa é uma visão rasa, que ignora as riquezas que a maturidade deposita em nós. A velhice é um mundo desconhecido… e toda nossa vida é um aprendizado para vivê-la. Não se trata apenas de tempo que passa, mas de como aprendemos a habitá-lo.
A maturidade traz consigo não apenas o eco das perdas, mas também a ressonância dos ganhos. O que antes era inquietação, agora pode ser calma. O que parecia urgência, transforma-se em contemplação. E o que antes era medo, muitas vezes cede lugar à aceitação. O tempo nos ensina o que realmente importa – e nos dá a liberdade de abandonar o que já não nos serve.
Sim, o corpo muda, mas com ele também muda o olhar. E talvez esse seja o maior presente do envelhecer: a capacidade de enxergar a vida sob outra luz, menos ofuscada por ilusões e mais iluminada pelo que é essencial. Porque, no fim, envelhecer não é apenas contar anos, mas aprender a dar a eles um significado.
A ciência e a medicina têm estudado o envelhecimento ao longo dos séculos, mas foi apenas recentemente que passamos a valorizar a dimensão psicológica desse processo. Envelhecer não é simplesmente acumular aniversários, mas a maneira como escolhemos viver e interpretar essa jornada. Como bem disse o poeta Cícero: “A velhice é honrada não por ter vivido muito, mas por ter vivido bem.” E viver bem, nesse sentido, é cuidar do corpo, da mente, cultivar laços afetivos e manter a curiosidade pela vida, como se cada dia pudesse ainda nos trazer algo novo e belo e novo sempre terá lugar em nossa vida. O novo não é sobre quantas voltas a terra já deu ao redor do Sol com você a bordo; é sobre aquelas aventuras que você ainda não se jogou. O novo é viver com a alma renovada. A Bíblia recomenda isso: “Se alguém está em Cristo, é nova criação. As coisas antigas já passaram; eis que surgiram coisas novas.” (2 Coríntios 5:17). Que a gente se encontre, marcado pelo tempo, mas enriquecido pela vida. Que as experiências esculpam nossa essência sem apagar nosso brilho, e que o riso siga sendo nosso melhor companheiro. Que a maturidade nos traga leveza, e que cada passo nessa jornada seja guiado pela sabedoria conquistada, pela gratidão pelo que já vivemos e pela serenidade de quem compreende que o tempo não é um inimigo, mas um mestre. E que sigamos assim, aprendendo, compartilhando, renascendo a cada dia, até que Deus, no seu infinito mistério, nos chame para outro tempo, outra morada.
Envelhecer é uma jornada. Não se trata apenas de contar os anos, mas de fazer com que cada um deles tenha significado. O tempo avança, e é nesse movimento contínuo que encontramos espaço para crescer, amar e, acima de tudo, viver com plenitude. Envelhecer bem não é apenas uma questão biológica, mas um estado de espírito – é manter a curiosidade acesa, o coração aberto e a alma desperta para os encantos que cada fase da vida oferece.
E que nunca nos falte o riso, porque ele é mais do que um remédio: é um sinal de que seguimos leves, mesmo carregando tantas histórias. Então, caminhe lado a lado com o tempo, celebre as marcas que ele imprime em sua jornada e lembre-se: o verdadeiro segredo não está em permanecer jovem, mas em permanecer vivo, não apenas no corpo, mas na essência. Porque aquilo que nos move, a centelha que nos faz sonhar, essa, sim, nunca envelhece.

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